quarta-feira, abril 18, 2007

O pai da insistência - Diana Corso

É barbada ser pai quando os filhos são reféns do cotidiano, das suas idas e vindas. Não importa a hora e o humor em que se chegue, a criança está lá, independente do efeito de grandeza, prazer, temor ou embaraço que a presença do pai lhe produza. Minto. Ser pai é sempre difícil, mas mais ainda quando não se mora com os filhos. Nesse caso a negociação fica delicada, o pai tem que agradar para receber o dom da convivência. Se o pai é chato, casmurro ou põe limites, os filhos se esgueiram para longe, escondem-se atrás dos ressentimentos da mãe, chantageiam. Paradoxo insolúvel, pois pai que é pai não agrada, faz o que tem que fazer, duela a quien duela. Como então passar a necessária lição de vida num fim de semana alternado, na noite previamente estabelecida, em meias férias? É como sexo com hora marcada, fica estranho.

Tudo o que ensino não tem uma segunda-feira, lamenta Fabrício Carpinejar em seu recém lançado livro de poesias: Meu Filho, Minha Filha (Bertrand Brasil). Sujeito intenso, homo faber da poesia, tudo que vivi foi rente à pele, diz Fabrício. Ser pai não seria diferente, a dor de deixar de viver com sua filha mais ainda. Uma separação, quando há filhos, produz também uma dor diversa das mágoas do amor dissolvido do casal: a dor da perda da convivência com os filhos. Quase sempre são os filhos os porta-vozes das seqüelas deixadas pelo fim de um casamento. Quanto aos pais, por serem agentes da fragmentação da família, parece que perderam o direito de queixar-se.

Fabrício não. Ele esperneia, grita, reclama e resmunga pela família interrompida. Sofre com a distância da filha no viva voz. Lamentando a ausência, ele acaba ensinando um pouco do que aprendeu com a presença. Fala também da experiência de ter um filho em casa e, não se iludam, ali também um abismo de incompreensão assola pais e filhos. Eles nascem quando já é tarde para nossa infância, já fizemos dela uma separação litigiosa. Obstinados em suas existências tão incompletas, em seus raciocínios enviesados, os filhos nos impõem um reencontro neurótico com as crianças que fomos, com os pais que tivemos. Eles querem nos devolver a infância quando já não sabemos mais brincar (sic, Carpinejar). Desse conflito são paridos dolorosamente, prematuros, enrugados e aos gritos, os pais que seremos.

Meu Filho, Minha Filha é a prova de que na família reinventada depois da morte do casamento indissolúvel, é a paternidade que é indissolúvel. Claro que há os homens que abandonam os filhos depois de uma separação, como se eles fossem adendos do corpo da mulher não mais amada. Esses, provavelmente, não eram pais nem quando estavam casados. Eram os maridos da mãe, que viviam na mesma casa dela. Se um homem é pai, continuará a sê-lo a cada dia da vida do filho.

Pai que é pai, lamenta o poeta, lê seus filhos, mas infelizmente não estará aqui para completar a leitura. Deve partir antes, é assim que deve ser. Mas se for insistente, ficará tatuado na alma dos seus descendentes. Para o sempre deles, mesmo que eles só reconheçam isso quando se tornarem pais.

quinta-feira, março 08, 2007

Quanto tempo - Novos projectos

Faz tempo que não escrevo aqui, mas ando envolvido em novos projetos, entre eles:

Meu último hobby tem sido cozinhar e para não perder as receitas criei um novo blog apenas para temas culinários Cícero-nacozinha. As actualizações ocorrera, no mínimo, uma vez por semana já que estou sempre experimentando novas receitas.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

www.yahoogroups.com politica-br - tantas idéias e tão pouco fundamento

            Voltei a assinar a lista politica-br, no yahoogroups, para tentar ficar um pouco mais por dentro das notícias políticas do Brasil e sair um pouco da nossa mídia manipulada. A lista é boa quando segue a linha informativa, mas quando alguns resolvem opinar a coisa complica. Quando alguém discorda dos comentários, a coisa complica ainda mais. Alguns já não se gostam então ficam horas discutindo e trocando farpas, nem sempre com algum embasamento lógico.

            Algumas questões acabam por chamar mais a atenção porque a conclusão resultante do artigo deixa um pouco a desejar.

            Uma era sobre a ética da propaganda infantil que “força” as crianças e adolescentes a quererem coisas por associarem produtos a imagens. A questão é se o Estado deve se envolver e proibir ou limitar as propagandas. Em vez de pensar em se dedicar a formação das pessoas dando-lhes ferramentas para tomar decisões e não caírem nestas armadilhas opta-se pelo caminho simplista da proibição. Que adultos serão estes que não aprenderam a se controlar e reconhecer que não é um ténis ou uma roupa que nos torna especial? Ninguém poderá ser protegido por toda a vida, nem das propagandas na TV, nem de pessoas de má índole, nem de produtos de baixa qualidade, nem de notícias falsas ou programas de TV ridículos. Sem cair ninguém aprende a levantar.

            Outro artigo era sobre a educação brasileira e a causa desta crise. O autor do texto encontro o problema e, segundo ele, também a solução mas disse que acha que o governo não está interessado. Paulo Ghiraldelli  Jr. (o filósofo de São Paulo) coloca a culpa pela má qualidade do ensino na falta de gosto dos professores por aquilo que fazem. O texto segue uma aluna fictícia que acaba por se tornar professora depois de se formar em Pedagogia, aos empurrões e com ajudas, deixando de lado a crise praticamente mundial no ensino ou sequer olhou para os bons professores, aqueles que gostam do que fazem, mas que, ainda assim, não conseguem atingir os objetivos de educadores.

            Por todo o lado é a mesma coisa: alunos que desrespeitam os professores ou não se interessam pela escola. Estes alunos são as crianças que protegemos, que não são responsáveis pelos seus atos, frutos de uma sociedade onde ambos os pais trabalham e não tem tempo para educar, muitos não querem se incomodar depois do final de uma cansativa jornada de trabalho.

            Convido vocês a olharem trinta, vinte ou dez anos no passado e imaginar quantas coisas mudaram, quantas coisas que fazíamos de uma maneira e hoje são completamente diferentes. Agora olhem para a escola e me digam o que mudou? Computadores nas bibliotecas? Mais alguma coisa? É suficiente? Existe um conto de ficção científica onde o viajante do tempo chega no futuro uns cem anos à frente e depois de vaguear perdido sem conseguir entender nada ou se encaixar em lugar algum resolve ir para a escola pois é o único lugar onde nada mudou.

            Hoje em dia o conhecimento em diversas áreas no mínimo duplica a cada ano. No ensino continua tudo na mesma. O sistema de ensino é o mesmo de há cinquenta anos atrás. Já existem outras teorias novas, novos conhecimentos adquiridos, novas técnicas, mas a escola continua a mesma. Depois queixam-se que os alunos fazem “Copy/Paste” de páginas na Internet para colocarem nos trabalhos. Nunca lhes pedem para pensar. Para dar opinião. Para aprender a construir o conhecimento em vez de copiá-lo de algum lugar.

            Será que as crianças de hoje, expostas a diversas estímulos novos, que aos quatro anos já sabem usar o computador, terão paciência para: vovô viu a uva?

 

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Feliz Natal e um 2007 cheio de realizações

Chegamos a famigerada época do ano em que muitos exclamam, “Como o ano passou rápido!” O que me lembra quando faço uma viagem longa. Enquanto estou no avião estou morrendo de tédio, louco para chegar ao destino e amaldiçoando as horas que não passam. Depois de chegar, até penso que a viagem nem foi tão longa assim, nem foi tão ruim. Pois, como não acontece muita coisa durante o voo, acabamos por não ter o que lembrar e cremos que a viagem foi até curta. No final do ano acontece a mesma coisa.

Foram 365 dias e ao tentarmos lembrar o que aconteceu ficamos com a idéia de que não vamos nem lembrar o suficiente para pensar durante três dias, não conseguimos guardar um por cento de lembranças.

Eu sei que não consigo passar três dias relembrando coisas deste ano sem repetir memórias. Mesmo assim consigo lembrar bastante coisa. Algumas pessoas se afastaram ao longo do caminho—uns por terem ido morar longe, outros porque seguiram por outro caminho que acabou por nos afastar, alguns porque não puderam nos seguir.

Foram muitas lágrimas, sorrisos, discussões, esperanças renovadas, decepções surgidas, famílias que aumentaram, famílias que diminuíram, famílias que se reorganizaram. Foram tantos acontecimentos.

Cada um de nós acolhe estas mudanças da melhor maneira que pode. Muitas se desesperam, lutam contra, amaldiçoam céus e terras por aquilo que perderam ou ganharam. Outros simplesmente se resignam. “O que não tem remédio remediado está.” Já dizia uma das mães de uma amiga minha.

As dádivas colhemos com alegria, as desgraças marcaram fundo o nosso coração.

Tantas vezes nos sentimos sós porque esquecemos de olhar para o lado e ver um amigo que nos acompanhava calado, sentindo a nossa dor, mas nos dando espaço para que descobríssemos sozinhos a nossa força. Entretanto, preparado para nos segurar caso tropeçássemos.

Tantas vezes estávamos mesmo sós e não tivemos solução senão caminhar sorrateiramente, tentando passar despercebidos e simplesmente chegar ao final do dia.

Foram tantas as vezes que carregamos as nossas mágoas e problemas, nos culpando por todo, e acabando por esquecer que realmente existem outras pessoas que gostam da gente e que estão ansiosos por nos ajudar.

Tantos momentos diferentes, tanta água por baixo da ponte. Poucos são aqueles que conseguem dizer, “Este ano correu exatamente conforme eu planejei quando ele começou.”

Agora é chegada a hora de fecharmos para balanço. É a hora de recolhermos tudo em meio às festas de final de ano. É hora de renovar as esperanças, de se preparar para o próximo ano onde poderemos aplicar algumas lições aprendidas neste e onde, com certeza, aprenderemos lições novas.

quarta-feira, novembro 15, 2006

Crise na Mídia?

            Já moro fora do Brasil há oito anos mas ainda mantenho ligações, minha família está toda aí e preciso cumprir o meu dever cívico de votar no Presidente de quatro em quatro anos. Por um lado, tenho a vantagem de não ser bombardeado com as informações duvidosas presentes na nossa mídia, por outro, tenho que lutar para tentar compreender o que acontece.

 

            Nos últimos meses comecei a me chocar com a postura da imprensa brasileira com relação ao nosso quadro político. Mais especificamente com os ataques ao Presidente Lula. O mínimo esperado de um repórter é que tenha conhecimento das falácias que podem ser usadas para manipular informações para não caírem em armadilhas e abrirem os olhos da população então é difícil não se espantar quando os jornalistas passam a usar as mesmas para manipular a população. Caindo no ridículo de justificar as atitudes usando uma lógica no mínimo infantil. “Se há escândalo no governo quer dizer que ele é mau e temos que derrubá-lo. Apoiamos um candidato decente, não importa que os escândalos no estado em que ele governava foram varridos para baixo do tapete.”

 

            No meio de todo este jogo nós, os que deveriam ser informados, acabamos por perder. Ficamos sem saber se as CPI’s eram mesmo válidas, ficamos sem saber como foi o governo do Alckmin, ficamos sem ver os índices do que melhorou no governo Lula, ficamos sem saber como funciona verdadeiramente o Programa Nacional de Agricultura Familiar, o Compra Direta, o Bolsa Família. Há casos em que a família recebe dinheiro do bolso família para manter os filhos na escola; as escolas para garantir a merenda escolar compram produtos destas famílias que tiveram a produção financiada pelo Pronaf. No meio disto tudo os atravessadores são eliminados facilitando a vida do produtor e do comprador.

 

            O maior problema, e muita gente ainda não se deu conta, é que existe mais de um Brasil. Existe um Brasil dos pobres, dos miseráveis, existe um Brasil dos ricos, existe um Brasil da classe média e existe apenas um governo, que tem que dar conta deste país todo. Acrescente a tudo isto a nossa infantilidade política. Exercemos nossa direito democrático do voto poucas vezes ainda estamos amadurecendo, errando e aprendendo. Só espero que os prejuízos dos erros não sejam muito altos.

 

            Acabei por encontrar dentro da própria mídia, algumas vozes que se afastam do coro entoado pelos jornalistas. Não tenho certeza é se estas vozes são observados no Brasil ou se são taxados de subversivos pela mídia macartista que temos. Quando vejo o poder da comunicação ser posto em prática, acabo por lembrar do livro 1984, do George Orwell, acabo por lembrar também de outro George, o Bush, este que é o atual presidente dos EUA. Lembro de como ele caçou as vozes que ousaram questionar o porquê do 11/9. Ninguém disse que não era uma atrocidade, mas houve gente que ousou perguntar o porquê e acabaram sendo cassados pelos colegas da mídia.

 

            Vivemos na era da informação, a Internet veio alterar muitas certezas e ampliar o nosso universo. Democratizou a informação. Por um lado temos acesso a informação praticamente ilimitada, em contrapartida, não sabemos em quem confiar. Já vi texto do Kledir Ramil circulando com o nome do Veríssimo, já vi texto preconceituoso contra pagode circular com o nome do Veríssimo, já vi texto da Martha Medeiros circular com o nome do Jabor, já vi a propagação da ONG estritamente virtual “Amigos de Plutão” criada por um “jornalista” irresponsável e com ameaça de CPI no congresso feita por um político no mínimo ingênuo.

 

            Voltei a me chocar um pouco na semana passada quando recebi um e-mail com a história do Paulo G. Müller, o cara que, supostamente, bateu duas fotos antes do avião da Gol despencar. O e-mail trazia as fotos em anexo que eram snapshots da série de TV chamada “Lost”. Os mais crentes e desavisados propagaram o e-mail pela Internet e acredito que milhares, se não milhões, de pessoas caíram no conto. Para agravar um pouco mais, hoje recebi um trecho do Jornal de Uberaba com a mesma “reportagem” e a mesma foto. Agora estou num impasse: será que o jornal é tão ruim assim que não valida as fontes das “notícias” que circulam pela net ou será que o último e-mail nem é verdadeiro, o jornal nem existe, ou existe e nem publicou tal matéria.

 

            Tudo isto me lembra o personagem do “1984” corrigindo discursos passados do Presidente para que ele não caísse em contradição.

terça-feira, novembro 14, 2006

Livro: To Kill a Mockingbird

“Atirem em todos os gaios que você quiser, se conseguir acertá-los, mas lembre-se é pecado matar um pássaro poliglota.” No original, “Shoot all the bluejays you want, if you can hit 'em, but remember it's a sin to kill a mockingbird.” No Brasil, o livro chama-se “O sol é para todos.”

Este é o conselho dado para o sábio Atticus Finch para seu filho Jem depois de lhe dar uma arma de pressão como presente de Natal. A princípio Jem não entende o porquê até que Calpurnia, a empregada da casa, explica que os mockingbirds não fazem mal a ninguém, nem pessoas nem outras aves, elas simplesmente cantam. Assim acabamos por descobrir o porquê do nome do livro de Harper Lee.

Acabei de lê-lo esta semana. Esperava que a leitura fosse boa, mas não consegui deixar de me impressionar pela capacidade que Harper Lee teve ao retratar o modo de falar dos sulistas americanos.

A estória é narrada em primeira pessoa por Scout Finch e relata três anos da infância dela e do irmão Jem. Scout narra a infância dos três e o impacto da vida do pai, Atticus Finch, na vida deles. Os eventos acontecem nos EUA, no início do século passado, a escravatura havia sido abolida mas os negros ainda não eram considerados seres humanos. Atticus é o exemplo de retidão e luta pelos seus princípios enquanto tenta educar os filhos e dar-lhes armas para resolverem os problemas que encontram e que aumentaram ao longo da vida.

Atticus é escolhido para defender um negro acusado de ter estuprado uma jovem do condado de Maycomb, Alabama. Atticus, um exemplo de integridade, luta com todas as suas forças para desempenhar o seu papel na luta de classes. Ele acredita na igualdade dos homens e luta por ela. Através da ingenuidade inerente das crianças que percebemos em Scout somos agraciados com questionamentos simples sobre as convenções sociais e o racismo.

As duas crianças crescem com valores ligados a autenticidade, Atticus incita-as a pensarem por si sem seguir as convenções, mas ao mesmo tempo ensina-as que nem sempre vencemos ou temos que lutar, as vezes devemos ser tolerantes e lutar com a cabeça, aceitando pequenas derrotas que nos trarão algumas vitórias no futuro.

terça-feira, setembro 26, 2006

O verão está acabando

Mais um verão chega ao final. Os dias já começaram a ficar mais curtos e até choveu um pouco nestes últimos dois dias. Acho que por estar habituado a ter o verão como um símbolo do início de um novo ano no Brasil, afinal, as coisas recomeçam mesmo depois das férias de verão, ainda sinto um pouco disto aqui em outro hemisfério.

Não gosto muito do verão porque o calor me incomoda. Quando existe a possibilidade de se passar o verão apenas “lazeirando” não me sinto tão incomodado, mas quanto temos que nos vestir e ir para o trabalho diariamente, mantendo uma certa sobriedade na maneira de vestir, o verão se torna mais complicado de suportar.

Adoro, porém, os dias mais cumpridos, o colorido da luz no alvorecer do dia e, acima de tudo, adoro a luz do crepúsculo. Gosto de deixar as janelas abertas e observar o dia acabando. A nossa casa, nossa vida, tão iluminada, com tudo tão bem delimitado, começa a se mesclar, as delimitações começam a sumir.

As tonalidades da luz que colorem a cidade começam a mudar e os tons se tornam mais variados. Tente fazer uma comparação entre uma cidade iluminada com a luz do final do dia e durante o meio-dia por exemplo. Muito luz torna tudo muito visível diminuindo o espaço para imaginarmos as coisas.

Vou sentir falta destas coisas. Pelo menos até o próximo ano, mas, em contrapartida, está chegando o Outono. Ah, o Outono. Com suas cores, a sua temperatura amena, as folhas das árvores pelo chão, a sensação de preparação para entrar num período mais lento e escuro, a semi-hibernação que é o Inverno.

Está chegando perto a hora de fazer as mudanças práticas para a troca de estação. Trocar as roupas de Verão pelas de Inverno, começar a incrementar o peso das cobertas de cama, aproveitar para arejar os colchões e armários. Se preparar mentalmente para não cair na tentação de comer muito no Inverno, quando tudo nos parece mais apetitoso.

Enfim, o tempo é assim mesmo, ciclos que vão e vem, e a gente aqui, observando eles passarem. Relembrando com saudades bons momentos e aguardando com esperança o que está por vir.